DRAG QUEEN POR UM DIA | Como o projeto PRIDE QUEENS mudou minha concepção sobre a arte drag

É DRAG QUEEN que vocês queriam?

Me deixem começar com o devido pedido desculpas.

Pois é, eu sei que não é todo dia que eu apareço na sua timeline derrubando portas com os dois pés, mas adianto:

O BABADO DESSE POST É FORTÍSSIMO.

Quem me conhece a a mais tempo sabe que uma das minhas grandes paixões nessa vida é acompanhar o trabalho de DRAG QUEENS. Sou fã, entusiasta e apoiadora dessa arte que está tomando cada dia mais o seu merecido lugar e reconhecimento.  Você não precisa ser nenhum profundo conhecedor da cena pra saber que durante muito tempo grandes Drag Queens armadas com talentos gigantescos foram (e ainda são) marginalizadas enquanto artistas. O que você tem a ver com isso? Tudo. O preconceito, exclusão (inclusive dento do movimento LGBT) e até mesmo esteriótipos de gênero são grandes empecilhos pra que arte drag seja devidamente valorizada.  Se instruir, compartilhar conteúdos informativos e não reforçar discursos de ódio já ajuda a disseminar a ideia de que Drag Queens existem e resistem. E claro, de maneira FABULOSA.

Eu me considero alguém privilegiado e não foi diferente quando tive a HONRA de conhecer um pouco mais de perto (E BEM DE PERTO) a arte DRAG. Tenho amigos e amigas que fazem um trabalho maravilhoso e que me proporcionaram viver a experiência de uma montação drag por um dia. ISSO MESMO, a baixinha que lhes escreve virou um ser místico e poderoso dentro do PRIDE QUEENS, um projeto que nasceu da paixão e vontade de mostrar ao mundo a cena talentosa e diversificada das Drag Queens de Porto Alegre. O Pride Queens conta com Ayô, Belle, Seripha, Savannah, Zelda e Kai, quatro jovens talentosos que acreditam na arte além do visual mas sem ARRASAR menos por isso. Eu descobri que o Pride Queens é muito mais do que só aparecer linda e lacradora nas fotos, mas que é também sobre luta, apoio mútuo, crescimento, troca de ideias e experiências. E foi com toda essa carga de importância que encarei meu primeiro photoshoot montadinha e é sobre ele que irei contar um pouquinho agora!

Eu não tinha ideia de como pode ser trabalhoso e gratificante uma montação. Ayô chamou e quando cheguei na casa da Seripha  já percebi que aquele ambiente tinha me ganhado: Glitter, maquiagem, peruca, roupas cintilantes por todos os lados. Eu, principiante, fui de blazer branco e já logo acabei sendo informada que não ia dar certo, afinal, o que tem de COR naquela casa não é mensurável! Gente, eu tava me sentindo morando dentro da bandeira LGBT. Tava feliz, né? Pois bem, como boa abusada que sou já fui logo arrumando um espacinho perto das meninas que já estavam se maquiando. Elas não sabem mas eu já estava meio “Y É O QUE?” com as makes que elas estavam usando e fazendo uma na outra. NEM TAVA PRONTO AINDA e eu já babando, encantada com o que estava saindo, já empolgada pra ver todas em seu resultado final. Pra uma mulher que põe um rímel, um delineador e CALL IT A DAY, imaginem qual foi a sensação quando Seripha me olha e diz: VAMOS TE MONTAR TAMBÉM?

MENINAS, FIQUEI IMPACTADA.

Impactadíssima, diga-se de passagem. Meu coração bateu forte e fiquei mais animada do que nunca! Sentei na cadeira e nem respirava pra não atrapalhar, não tinha a mínima ideia do que estava sendo pintado no meu rosto. Aliás, gente, a rapidez com que Seripha me maquiou EU TO PRA VER, VIU? Quando olhei no espelho, o choque:  NÃO ERA MAIS A GLAINÁ, EU ERA UMA LEOA MUITO DA PODEROSA. A sensação de ser alguém completamente novo e encorporar essa personagem me fez entender de uma vez por todas que a arte drag é muito, muito mais mágica do que eu pensava ser. Assim que cheguei em casa tive que chamar Ayô e dizer que eu JAMAIS havia me dado conta que fotografar (imagina performar!) com uma ilusão no rosto, traços que não são todos seus e noção distorcida de como estamos parecendo É DIFÍCIL. Sou uma mulher acostumada a fotografar, nos mais diversos ambientes, com as mais diversas roupas.. E olha, tomei UM BAILE. É, amigos: RESPEITA A ARTE, não é brincadeira, viu? Emocionada, ainda fiz uma participação especial no terceiro photoshoot do Pride Queens, o “e•the•re•al”, numa pegada BEMxMAL, temos heroínas e vilãs mas todas elas BEEEEM VIADAS que é como a gente gosta! Vocês podem conferir AGORINHA!

 

AYÔ – THE HIDRA

drag queen ayo

Divindade, senhora das águas, protetora.

BELLE ZETH BOO – THE HEROINE

drag queen belle

Divindade heroica, autêntica, a busca pelo bem.

KAI – THE CORRUPTION

drag queen kai

Divindade corrompida, sombria, sedenta por poder.

SAVANNAH – THE ORACLE

drag queen savannah

A que tudo vê, a que tudo sabe, a que pode guiar.

SERIPHA -THE LEVIATHAN

drag queen seripha

Criatura das águas e seus seres, força e fúria das ondas.

ZELDA -THE HIEROPHANT

drag queen zelda

Divindade de luz, bondade e sabedoria.

GLAINÁ –  THE COURAGE

drag queen glaináDivindade terrena, coragem e bravura.

“Em um mundo dividido, onde o caos e a ordem, a luz e as trevas, a paz e o ódio se enfrentam numa batalha constante, nossa heroína só tem uma alternativa para sobreviver:
SER MUITO VIADA!”

Aproveito o espaço pra agradecer e exaltar cada uma dessas DRAGS MARAVILHOSAS e é com lágrimas nos olhos (ela é sensível ela!) que eu tive o prazer de dividir essa experiência com vocês. <3


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Textão, fanfics e a implicância com a militância online

Venho reparando que vários dos meus amigos dizem que acreditam e apoiam algumas causas de minorias (ou nem tão minoria assim). A grande questão é que vários desses mesmos amigos me confidenciam uma extrema irritação com a militância da internet. Alguns deles acabam tomando uma certa implicância, e por fim, se posicionam de maneira que passe a mensagem inversa ao que determinado grupo/militância prega.

Darei um exemplo: Eu conheço pessoas que acreditam que mulheres devem ter os mesmo direitos sociais, políticos e econômicos que os homens, mas acabam se dizendo “não feministas”. A ideia distorcida sobre um grupo ou movimento apenas atrapalha, atrasa e afasta pessoas que poderiam contribuir pra mudanças significativas sobre determinada pauta.  A verdade é que pra quem já nasce um degrau acima, deve irritar MESMO o fato de que alguns movimentos e militâncias não lhe devam simpatia ou obrigação de educar, mesmo que MUITAS de nós ainda façamos isso com um sorriso no rosto.

Vamos ao que interessa!

Pra iniciar, é bom levarmos em consideração que o reconhecimento de privilégios (seja ele branco, hétero, magro, homem) é sem duvida algo desconfortável. Você começa a perceber fatos que nunca lhe interessaram perceber antes e isso realmente incomoda. Você se sentirá desconfortável, haverá da sua parte a rejeição e esse é um dos caminhos para tomar o famigerado “nojinho” dos movimentos. Não se deixe levar.

Existe toda uma estrutura elitista, patriarcal e machista criada pra fazer parecer que os movimentos sociais e suas militâncias são inúteis, exageradas ou falsas. Existe, inclusive, manobras políticas que reforçam a ideia de que o feminismo, por exemplo, é um movimento com lado político. Amores, vamos lá: caminhando pela direita ou caminhando pela esquerda, a mulher segue oprimida.

A tentativa de ridicularizar causas de extrema importância e relevância social  muitas vezes geram resultados, principalmente quando o público alvo é o homem médio com baixa escolaridade, pouco  interesse em aprender ou reconhecer privilégios. Esse exército de pessoas são manipuladas e usadas em manobras de massa por aqueles que sabem muito bem o que, em suma, querem os movimentos sociais: IGUALDADE. Eles dizem desejar matar bandidos, que querem armar a população, mas a verdade é que eles não estão, de fato, nem aí pra você, mas sim, precisam de alguém reforçando um discurso injusto, ignorante e preconceituoso pra que eles se mantenham lá em cima com todos os privilégios possíveis. Não seja um “minion” dessa galera, dê uma chance a seu cérebro, corra, vá atrás da informação!

Dentre as tentativas de ridicularização, surgiu um fenômeno chamado popularmente de “fanfics”. Originalmente, fanfics são chamadas assim quando uma história de ficção é escrita, geralmente com personagens populares e famosos.  Eram histórias alternativas inventadas com finalidade recreativa. Na era “textão” em que vivemos e com o aumento da militância online, muitas foram as vezes que agressores e situações cotidianas de descaso e desigualdade social foram expostas de maneira livre e acessível, fazendo com que a repercussão desses assuntos tomassem proporções gigantes e nunca antes tomadas, já que todas as histórias eram antes filtradas pela mídia, ou seja, de fácil manipulação. Assuntos pertinentes a minoria começaram a serem discutidos e bom… De fato incomodou a galera que antes podia ser “escrota” sem passar vergonha.  Diante disso, muita mentira foi contada, muita história falsa foi plantada com fim de desvalidar e descredibilizar os movimentos online.

Precisamos pontuar:

“Fanfics”. É indiscutível que muitas pessoas inventam histórias ideais a fim de se promoverem, de ganharem o selo LACRE, de fazer a linha destruidora. Não é muito difícil encontrar aquele textão sofrido totalmente surreal e carente por atenção. Porém acontece também de não haver o reconhecimento de que a militância ultrapassa os limites da internet SIM, e que muitas das atitudes discutidas aqui se tornam ações reais fora da web.

E nesse ponto eu queria levantar inclusive o que ouvi de alguns amigos meus: “Em você eu acredito pq você faz mesmo alguma coisa pra mudar as coisas e ajudar” ou “mas você faz o que você fala“.

E por isso fica aqui meu pedido pra militantes ativos:

Honrem suas palavras. Sejam coerentes em seus ideais. Os likes passam, a vida cobra. Isso também não significa que você, por fazer parte da militância, precise ser perfeito. Ninguém aqui é, e a desconstrução se dá passo-a-passo, aos poucos, todos os dias. E pros descrentes de movimentos eu peço: Enxerguem as pessoas a sua volta. O mundo é maior que seu círculo de amizade e a internet é aliada. Não julguem textões como inúteis. Pode ser que aquele conteúdo não mude sua vida em nada, mas eu garanto que pode startar (sim!) uma grande mudança na vida de alguém.

Eu já vi isso acontecer. Já vi muito. Se temos essa ferramenta maravilhosa de comunicação, devemos usá-la.

A grande questão é: Com quem você está se relacionando nas suas redes? Que relevância essas pessoas podem ter na sua vida e na vida de outros?

Relacionem-se, pelo menos aqui, com pessoas que vocês respeite, compartilhe ideias, some experiências e que possam um dia se unirem pra por algum textão em prática.

A vida é curta, o texto é longo e ainda temos muito o que mudar por aqui.

 

As ilustrações são da maravilhosa artista Agnes Cecile!


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Beleza, autoestima e o mito de que uma coisa depende da outra

Oi, tudo bom? Vamos conversar um pouquinho? <3

Não é difícil encontrar pela internet, na televisão ou até em livros dicas e conteúdos sobre a elevação da autoestima. A busca pela autoconfiança e segurança é um assunto bem atual, inclusive aqui mesmo nos meus textos. O tema vem tomando força a medida que vamos estendendo os conceitos de beleza, felicidade e sucesso.

É bem comum estar rolando o feed e achar posts sobre se sentir linda, empoderada, dona de si mesma. Eu mesma faço questão de estar sempre reforçando o quanto somos lindas como escolhemos ser, o quanto somos poderosas e tudo mais. Mas já repararam que o “se sentir linda” é sempre o foco principal, o mais falado, o mais buscado?

Se sentir feliz com a sua aparência, aceitar e até mesmo celebrar sua auto imagem é de extrema importância sim, mas precisamos entender que somente a aparência, a longo prazo, não sustenta autoestima elevada.

Isso acontece pelo simples fato de que somos pessoas completas, feitas de experiências passadas, vivência de presente e também pq almejamos, naturalmente, a felicidade futura.

A complexidade do que somos como seres humanos as vezes nos faz buscar caminhos e mecanismos mais fáceis pra enfrentarmos nossos problemas mais pessoais e profundos.

Parece mais fácil (mesmo que não seja) arrumar o cabelo, comprar um vestido novo e se sentir linda para poder dizer-se com autoestima elevada. É maravilhoso que essa sensação exista, mas é PRECISO fazer o recorte necessário sobre a aparência em relação a autoestima.

A beleza é um dos conceitos mais relativos do mundo, apesar de vivermos sobre um padrão ocidental que define exatamente o que pode ser lindo ou não. Considerando que as pessoas sentem e enxergam as coisas diferentes umas das outras, é impossível esperar que sejamos lindos pra todo mundo ou pro resto das nossas vidas.  A frustração é um perigo real, e é aí que o conceito aparência X autoestima tomam rumos diferentes na história.

A autoestima deve ser um compilado de sentimentos positivos sobre nós mesmos. É quase que uma convicção própria de que somos bons o suficiente pra sermos quem queremos ser, fazermos as escolhas que julgarmos ideais, entender, aprender e perdoar nossos erros meramente humanos. Autoestima é acordar pela manhã sem a dúvida de que nossa existência tem sim um propósito, que somos dignos de amor, respeito, carinho e que isso tudo pode ser dado a nós por nós mesmos.

A autoestima precisa se desligar do espelho às vezes. Não que o espelho não ajude a enxergar nossa luz refletida em forma de beleza externa, mas por ser um conceito tão vago e infinito, precisamos nos apegar no que sobra depois que tudo vai embora.

Não há uma obrigação em se sentir linda o tempo todo. Não há uma obrigação em se sentir sexy e até mesmo desejada o tempo todo. Quando entendemos que essa autoestima é frágil e que precisamos fortalecer quem somos, o que amamos e o que queremos, se sentir linda não vira mais uma questão de obrigação nem de esforço para com sua auto imagem e confiança, e sim, só uma consequência.

A autoestima, por fim, é muito mais sobre confiar nas suas habilidades, se orgulhar da pessoa que você é e dormir tranquilamente a noite do que simplesmente apoiar-se na aparência externa para que sejamos validados por outras pessoas. A autoestima é muito mais sobre nós mesmas, sobre como nos sentimos lá dentro do que sobre a quantidade dos likes na foto da nossa bunda.

Eu levei um tempo pra entender que me sentir feliz e completa era muito mais saudável do que me sentir apenas bonita. Até pq quando estamos realmente felizes e completas, a beleza transborda da alma e brilha no corpo.

Preste atenção no que vem de dentro <3

As ilustrações são da maravilhosa artista Cécile Dormeau.


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